Viagem
ao centro do Dutão
Baile
do Viaduto de Madureira completa 16 anos de sucesso
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Por
Paula Estrella
Fotos divulgação |
O
baile charme de Madureira está com tudo. Há
16 anos, todos os sábados e vésperas de feriados
pessoas de todos os lugares do Rio de Janeiro se reúnem
sob o viaduto Negrão de Lima para conversar, azarar
e se embalar nas batidas do charme e do Hip Hop. A fórmula
para tanto sucesso? A tradição e a fidelidade
do público. E a freqüência só tem
aumentado. Com o reconhecimento total e o levante que o
Hip Hop sofreu nos últimos dez anos, muitas pessoas
passaram a buscar a raiz daquele que aparece no mainstream
como apenas uma ponta de iceberg. E no viaduto podemos encontrar
a raiz da black music, ora na empolgação dos
freqüentadores, ora no capricho dos revezamentos e
sets preparados pelos DJ’s da noite.
Vale lembrar também que, com o fechamento do Disco
Voador em Marechal Hermes, o processo de reconhecimento
do viaduto de Madureira como local oficial da noite black
na Zona Norte só se intensificou. Por isso todos
os sábados são movimentados e a badalação
é intensa como acontece com todas as festas do gênero
na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de tantas casas que
tocam ritmos como o do viaduto (R&B, Hip Hop, charme,
black music em geral), muita gente envolvida na produção
e até mesmo os freqüentadores garantem: não
existe local igual. Pela própria estrutura (o baile
acontece bem embaixo do viaduto) o evento se diferencia
e realmente não conseguimos imaginar um outro lugar
similar. A sensação é de proteção,
pois o lugar é coberto e tem fama de baile da paz
pela ausência de violência. Será o efeito
do ritmo envolvente?
Logo que chegamos nos deparamos com grupos reunidos dançando
com todo gás espalhados pelo espaço, o que
já dissolve qualquer espírito com más
intenções que esteja se aproximando. A cerveja
rola a noite toda com preço acessível e os
vendedores que montam balcões em dois pontos do viaduto
(logo na entrada e perto do banheiro, atrás do DJ)
não têm descanso. São mais de 400 engradados
com 12 latas vendidos por sábado! Trata-se de cerca
de cinco mil latinhas consumidas pelos freqüentadores.
Não podemos esquecer do mais importante: lá
encontramos pessoas muito bem arrumadas, homens bonitos
e as donas das curvas mais estonteantes do Rio de Janeiro.
Rola muita azaração durante toda a noite,
mas todo mundo se respeita, é claro! Muitos vão
já acompanhados e mesmo assim não ficam parados:
todo mundo dança bastante, afinal não tem
mesmo como ficar inerte com o ritmo mais quente em local
tão original como o Viaduto do Charme ou, para os
mais íntimos, o “Dutão” de Madureira.
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Detalhe
do viaduto Negrão de Lima: cultura marginal |
Por lá podemos encontrar alguns famosos como o rapper
MV Bill e o ator Leandro Firmino da Hora, o Zé Pequeno,
do filme Cidade de Deus. Mas não são só
esses que acabam ficando famosos. Quando chegamos lá
podemos encontrar fotógrafos, produtores de eventos,
além dos DJ’s (sem eles não existiria
o baile) e muitas pessoas envolvidas no mundo das artes
em geral. Vai gente de todos os lugares do Estado, desde
a Baixada Fluminense até a Zona Sul. É o caso
de Gisele Guimarães, modelo da Cidade de Deus, que
apesar de não ir todo sábado, sabe bem da
importância de fazer contatos nas festas que vai.
“Freqüento desde o Hard Rock Café até
festas de rua na minha comunidade. Não costumo vir
muito ao viaduto, mas sei que preciso estar antenada por
causa dos meus trabalhos. Já fiz um editorial fotográfico
na Espanha e gosto daqui por causa do Hip Hop”, explica
a modelo, que estava no baile em companhia do fotógrafo
Tony Barros, do site Viva Favela.
Bem diferente de Gisele, Fabiana dos Santos, 23, e Elisângela
Tomaz, 20, moradoras de Jacarepaguá, não perdem
um sábado de charme. Elas são amigas e se
divertem no baile há três anos. “Eu curto
isso aqui porque é onde encontro forte identidade
com a cultura negra”, explica Fabiana. Já Elisângela
cita outros lugares que conhece como o Viaduto: “A
Febarj (Fúria Hip Hop), o Circo Voador e o Club Six,
na Lapa, o Ponto Chic, em Padre Miguel, e o Bola Preta,
na Rua 13 de Maio, são outros lugares pra quem curte
o gênero”, indica.
Jorge Luiz Santiago, 50, fotógrafo que acompanha
o evento desde que ele surgiu fala das mudanças que
percebeu de lá pra cá: “Eu vi aqui casais
se conhecendo, casando e hoje fotografo até seus
filhos que já freqüentam também o viaduto.
É uma experiência muito boa porque eu acabo
conhecendo muita gente e fico responsável pela memória
do evento por causa das fotos que tiro. Quem quiser faz
a foto comigo e pega na semana seguinte. Eu levo pra revelar
e vendo por uma média de R$ 2,50 a foto. As pessoas
gostam muito e pedem até pra repetir a dose. O grande
barato é vir aqui e ser fotografado”, diz ele,
com entusiasmo. Santiago já fotografou a geração
que freqüentou o auge do Disco Voador, na Lapa, e trabalha
fotografando o baile funk da equipe de som Furacão
2000.
A prova de que o viaduto vai muito bem é a visibilidade
que o evento tem tido em vários veículos de
comunicação do Rio e do Brasil. Só
este ano, o jornal O Dia e o programa Domingo Legal, de
Gugu Liberato, fizeram matérias tanto no Viaduto
quanto no evento que aconteceu em maio no Circo Voador em
homenagem aos 15 anos do baile. Nessa homenagem foram premiados
freqüentadores mais antigos e assíduos bem como
pessoas de importância na construção
histórica da festa.
Histórias
e resistência no Viaduto
O
Viaduto Negrão de Lima foi inaugurado na década
de 60 e leva o nome do então Governador do antigo
Estado da Guanabara. Na época de sua inauguração
era o maior do município. Hoje ele está hoje
muito longe de ser apenas uma grande construção
para político se orgulhar de ter feito. A construção
e a história do lugar pertencem atualmente às
mais de 2.500 mil pessoas que passam por ali a cada fim
de semana. O motivo: o baile charme que representa um marco
de resistência cultural no bairro de Madureira.
Mas nem sempre foi assim. No início, o espaço
era reduto de sambistas da área que reúne
hoje o maior número de Escolas de Samba e é
considerada o berço do samba. Foi lançado
no espaço primeiramente o Pagodão de Madureira.
“Somente quatro anos depois o baile começou
com o ritmo através da equipe que se organizou”,
diz Marcus Vinícius, atual entusiasta, produtor e
locutor do evento.
Para manter o bairro na vanguarda cultural do Rio de Janeiro,
um grupo de entusiastas da época se reuniu para transformar
o viaduto em um baile que tivesse um valor acessível
e que divertisse o público com black music –
na época já existiam bailes no estilo, porém
com entradas a custo alto e fora da Zona Norte. “A
idéia nasceu de se fazer uma festa com apelo popular,
para o pessoal de baixa renda mesmo. Há 15 anos a
cultura de baile black tinha uma bilheteria meio salgada.
Aí se teve a idéia de fazer na rua e ter um
lucro apenas na bebida. A coisa foi se profissionalizando
e tomou as proporções que hoje vemos”,
diz Alex, o DJ “A”, DJ residente desde que começou
o baile e que atualmente se reveza com mais dois: Michel
e Black Jay.
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O
grafitte faz parte da ornamentação interna
do Negrão de Lima |
Tatiana de Souza, 20, apesar de freqüentar apenas há
seis meses tem tradição na família
quando se fala em diversão nas noites de sábado:
“Meus tios e primos já vinham e agora estou
podendo vir para me divertir”, disse ela empolgada
numa das madrugadas de calor no viaduto.
O locutor oficial, Marcus Vinícius, é também
produtor e ajuda a esquentar o clima no local divulgando
as próximas atrações e novidades do
baile. Ele diz que é sempre bom inovar trazendo um
convidado diferente como grupos de Hip Hop ou destinar um
dia especial em que a festa tenha um título. É
o caso da “Noite da Consciência Negra”,
que acontece no dia 19 de novembro. No ano passado, a festividade,
que já está em sua 3ª edição,
teve show ao vivo com a Banda DuGhettu, basquete de rua
rolando durante os sons e entrega de troféus aos
destaques de 2005. “Procuramos fazer eventos diferenciados
nas vésperas de feriados. Ou convidamos um artista
ou fazemos um baile com ingresso menor para promover o evento
de sábado e difundir a cultura black. Temos a idéia
também de levar o nome do viaduto para fazer eventos
fora daqui. Infelizmente algumas pessoas tendem a criar
monopólios e conhecemos gente que é contra
essa nossa expansão, mas eu vejo de maneira benéfica
até mesmo a exploração da mídia
que acabou fazendo uma boa abordagem. A mídia tem
explorado muito bem o nosso evento e isso é conseqüência
do nosso trabalho. Houve um crescimento de curiosos, mas
isso não interfere na nossa tradição”,
explica Marcus Vinícius.
Eles
fazem a diferença
Se
reunir com os amigos para fazer festas paralelas ao viaduto
já é uma febre entre os freqüentadores.
E todos apóiam essa iniciativa. Hoje, estima-se que
cerca de 10 festas são realizadas por ano baseadas
no mesmo ideal que hoje faz do viaduto sucesso de público.
E esses eventos não ficam atrás do baile charme
em termos de estrutura e qualidade. Tocam o mesmo tipo de
som, mas são organizados por “crias”
do viaduto. Festas como “As Escuras”, “Bonde-RJ”,
“Família Falcão” e “Chocolate
com pimenta” acontecem sempre nas redondezas de Madureira
e na Zona Oeste.
Os próprios DJ’s do viaduto dão uma
força na hora de mandar o ritmo. Michel e Alex, por
exemplo, estão sempre fazendo parte de alguma festa:
“temos que apoiar essas festas porque todas elas são
de pessoas que tem como referência o viaduto. São
ramificações do que acontece aqui, de quem
saiu daqui sabendo trabalhar com black music e aprendeu
a gostar do som aqui dentro”, diz o DJ Michel, que
há dez anos é residente no Espaço Cultural
Rio Charme, como também é conhecido o baile.
Os DJ’s concordam quando perguntados se essas festas
colaboram para a publicidade do próprio evento no
viaduto.
Outra febre é comemorar o aniversário por
lá. No dia em que nossa equipe estava lá o
próprio DJ Michel disse na entrevista que estava
completando 25 anos. Carla Regina, 24 anos, freqüentadora
há dez, fala com entusiasmo de seu aniversário
que reunirá no próximo sábado mais
de dez pessoas de sua rede de amigos e parentes. Ela mora
na Serrinha e fala com brilho nos olhos do point que fica
perto de sua casa: “Tenho orgulho de falar que venho
aqui há dez anos. Namorei um cara três anos
que conheci por aqui. Estou afastada dele, mas vou reencontrá-lo
no meu aniversário. Ele sempre vem ao Viaduto”,
anuncia.