14.08.07
Pan-checão
II
Pois na semana passada eu comecei a escrever sobre os Jogos
Pan-Americanos ocorridos, recentemente, no Rio de Janeiro. Foi
realmente emocionante para mim assistir de perto a tantas provas
de diferentes modalidades esportivas, algumas delas de esportes
que não fazem exatamente parte de nossa cultura cotidiana.
Por exemplo: estive presente a um dia de saltos ornamentais,
quando pude ver as mulheres mergulhando, individualmente, da
plataforma de 10 metros e os homens pulando em dupla de um trampolim
rente à superfície da piscina. Não tinha
a menor idéia de como se processavam os pontos neste
tipo de esporte e quais os critérios que levam um atleta
a obter determinada pontuação.
Diga-se de passagem, continuo não sabendo... Assim, o
que me vem à memória é a senhora que estava
a meu lado durante essa competição, cerca de 70
anos, distinta, cabelos pintados de negro, falante. Ela estava
junto a um grupo de senhoras de idades variadas, compreendidas
entre 50 e 70 anos, como pude notar. De todo o grupo, a que
estava a meu lado era, sem dúvida, mais falante. Emitia
suas opiniões de forma despretensiosa, tentando adivinhar
as notas dos juízes. Como estas eram ditas em voz alta
logo após cada salto, por alguém da organização
da competição (de modo consecutivo e ininterrupto),
a senhora a meu lado buscava imitar seu falar, no mesmo tom
rápido e monótono. Era engraçadíssimo,
principalmente porque muitas vezes a senhora dos cabelos tingidos
errava feio, mostrando o quão leiga era neste esporte
tão pouco tradicional em nosso país. Alíás,
quando alguma atleta cubana começava a se preparar para
um novo salto, a senhora dizia, invariavelmente: “Ih...
As cubanas são fogo!!!” Ou então, quando
alguma norte-americana ou canadense parecia ter obtido um salto
quase perfeito, ela dizia, perplexa: “que beleza...”
O fato é que chegamos a conversar, a senhora e eu, sobre
a possibilidade de uma medalha para a nossa atleta principal
nesta modalidade: a sorridente e experiente Juliana Veloso.
Não sabíamos realmente o quanto ela estava próxima
(ou distante) da tão sonhada medalha; torcíamos,
contudo, sabendo que o Brasil poderia subir ao pódio
mais uma vez. Ouro, nem pensar... Prata, quem sabe... Bronze,
talvez... Enfim, qualquer medalha seria ótima para nós
torcedores. É como se um pódio brasileiro fizesse
valer o ingresso, mesmo sabendo que o ingresso já estava
pago há tempos... Míseros R$ 10,00, para estar
em instalações esportivas de alto nível,
em uma de suas primeiras competições internacionais...
Pois não é que Juliana Veloso liderou boa parte
da prova, chegando a nos fazer pensar na possibilidade do ouro
(o que significaria, para mim, àquela altura do campeonato,
cantar o hino nacional pela quinta vez, coisa que fiz no dia
seguinte, na final do futebol feminino). Mas tem sempre uma
canadense, uma norte-americana, uma cubana, uma mexicana...
Tem sempre alguém no caminho, querendo a medalha tanto
quanto nós e nossos atletas. Nem sempre se pode vencer
e, em dado momento da competição, Juliana perdeu
a liderança. As moças, durante a final, teriam
que saltar cinco vezes, alternadamente. Além disso, já
tinham saltado outras tantas, durante a fase eliminatória,
que ocorreu na mesma tarde. Gostei muito do bronze e, mais ainda,
da simpatia de Juliana, que saiu dando entrevistas com seu sorriso
característico.
Levei minha mãe neste dia, pois tinha comprado alguns
ingressos a mais para alguns dias de competição.
Não tenho o menor problema em assistir sozinho a eventos
como este, mas o prazer de estar com pessoas próximas
em momentos de rara emoção não tem preço...
Ao final, despedi-me da senhora de cabelos tingidos, minha melhor
amiga por alguns momentos, pensando em como é bom ser
carioca e de bem com a vida...
Pablo Laignier.
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