Madureira,
Zunido: O seu jornal de bairros na internet. Produzido por estudantes de Jornalismo e Publicidade do Campus Madureira da Estácio de Sá

Sobrevivendo das sobras

Famílias disputam restos de alimentos nas lixeiras da Ceasa

Por Marcus Leite

As atividades realizadas no Ceasa-RJ sugerem um grande espetáculo de cinema. Desempenhando o papel de abastecer o Rio e o Grande Rio de frutas e legumes, os comerciantes são os atores sociais da triste realidade, exposta na mais longa metragem. Em meio a outros personagens, estão os catadores dos restos, resquícios de alimentos de outras classes. Convocados, eles roubam a cena num gigantesco cenário montado ao ar livre.

A todo o momento a cena se repete. Os lojistas da segunda maior central de abastecimento do Brasil, a Ceasa-RJ, despeja os hortifrutigranjeiros impróprios para a comercialização nas diversas caçambas espalhadas pelos pavilhões. É a hora dos catadores entrarem em ação. Famílias inteiras, expostos a pragas e a um forte mau cheiro, disputam os alimentos que os manterão vivos. Muitos também buscam ali a complementação de rendimentos insuficientes. Esse é o drama de centenas de pessoas que circulam diariamente nos 2.146.253,00 m² da Central, localizada em Irajá, no subúrbio do Rio de Janeiro. Segundo o chefe da Divisão Técnica da Instituição, Luiz Alberto Pereira, é impossível precisar a quantidade de catadores devido à informalidade da atividade. O convívio com os trabalhadores formais é conturbado. “Há muita discriminação. A maioria dos lojistas nos despreza. Preferem jogar as caixas no lixo, mas não dão para a gente. Já houve casos em que colocaram creolina para ninguém levar”, afirma a viúva Iracema, moradora da Favela do Amarelinho, que há 20 anos freqüenta o local.

Conceber a idéia de que o sustento é retirado das lixeiras soa como um paradoxo. Porém, é pura realidade. Os orgânicos em decomposição exalam um desagradável odor e atraem moscas, baratas, ratos, pombos, cachorros, entre outros. Ambiente propício para a transmissão de doenças. “É um risco que a gente sofre. Senão, morre de fome”, esclarece Paulo Henrique Rocha Saraiva, em seu primeiro dia de peregrinação na unidade. Vale de tudo na hora de transportar os suprimentos. Os carrinhos de metal se misturam às tradicionais sacolas. Os mais ousados equilibram a ‘colheita’ na cabeça como faziam os escravos. Até carroças podem ser vistas nos boxes.

Mais da metade deles reside nas comunidades carentes que circundam a Central. Nove favelas abrigam parte desses guerreiros que resistem às facilidades das práticas ilícitas. A Favela do Amarelinho, que fica situada a dois quilômetros, possui a maior quantidade de representantes. Completam esse grupo: Acari, Pára-Pedro, Jorge-Turco, Faz-Quem-Quer, Final Feliz, Pedreira, Lagartixa, e Parque São Luís.

Nos 18 pavilhões, são comercializados, mensalmente, 150.000 toneladas de gêneros alimentícios. Boa parte desse quantitativo é direcionado aos supermercados, principal fornecedor das famílias fluminenses.
   Marcus Leite
   
   Catadores aguardam o despejo de    frutas e verduras estragaads

Nem tudo que vai para as lixeiras é aproveitado pelos catadores. Segundo a Nova Rio, empresa responsável pela limpeza dos pavilhões, só no mês de outubro foram recolhidos 24.900 quilos de resíduos. Apesar de não fazer a diferenciação dos hortifrutigranjeiros, a Nova Rio estima que 75 % são compostos por frutas, legumes e verduras.

Ceasa reconhece o problema, mas não segura o abacaxi

É evidente que o Rio de Janeiro não é a única cidade a sofrer com a escassez de recursos. Segundos dados do IBGE, o Brasil possui 55 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. A administração do Ceasa reconhece a gravidade da situação dos catadores, porém afirma que a solução dessa mazela social foge à sua alçada. “Tudo é conseqüência da condição econômica do país. Aqui tem muito alimento. Num país subdesenvolvido como o nosso, sempre atrairemos os necessitados. A Ceasa diminuiu bastante o número de catadores, mas nunca vai acabar”, explica Luiz Alberto Pereira, chefe da Divisão Técnica. A redução do índice de flagelados citada se deve aos programas sociais que a unidade passou a gerenciar.

Sentindo na pele

“Vi muito rosto sofrido”. A declaração acima resume bem o sentimento que invadiu o desempregado Paulo Henrique Rocha Saraiva durante o seu primeiro dia como garimpeiro na Ceasa. Com 35 anos, ele se encontra no momento mais conturbado de sua vida. Há um ano, foi demitido do serviço de auxiliar de serviços gerais. Sem ter como se manter o aluguel do quarto onde morava na Glória, recebeu ordem de despejo. Hoje, perambula pelas ruas do Rio de Janeiro. “Sou um indigente”, define.

Deprimido, guarda na lembrança os bons momentos desfrutados. “Eu não tenho família. Ganhava 380 reais. De lá pra cá, não consigo arrumar emprego. Até envio currículos, mas só prometem chamar”, reclama. Exibindo um corpo franzino, sentado ao lado de uma caçamba, desabafa: “Achei muito triste o dia aqui. Vi muitos rostos sofridos de pessoas que estão no mesmo barco que o meu” Ele considera essa luta necessária. “É um risco. Uma fruta que é jogada no lixo fica exposta a moscas. Hoje é apenas meu primeiro dia, deve ter ratos também. Temos que entregar nas mãos de Deus. Depois da tempestade, chegará a bonança”. Expressa, assim, a esperança de um futuro mais digno.

Um jovem sem futuro

Dentro de uma caçamba repleta de laranjas, Éwerton, 25 anos, exibe um rosto cansado e uma fala engasgada pelos frustrações. Morador da Favela do Amarelinho e pai de um filho, credita a sua atual condição às desigualdades do país. “Sem esse alimento não daria para sobreviver. Com ele já está difícil”, diz o catador. Ele é mais um personagem de uma história longa e cheia de ramificações. Éwerton pode perder todos os apoios, mas sempre contará com a fidelidade do seu melhor amigo, o cãozinho vira-lata Faísca.

Faxineira, catadora e solidária

Há 15 anos marcando presença nas avenidas da Central, Eliane não perdeu a força para viver. Pelo contrário, alheia às restrições financeiras que enfrenta, ainda, apresenta-se como uma pessoa solidária. A rotina de Eliane é agitada. Faz faxina fora, cuida do seu lar, recolhe frutas e legumes, e cata papelão e latinhas para ajudar uma amiga desempregada. Foi com essa disposição que criou seus filhos que, atualmente, já constituíram famílias. Define como imprescindível à economia feita. “Consegui fazer um quartinho para mim com o auxílio dos alimentos. O que eu compraria no mercado pego aqui”, ressalta a faxineira.Apesar da alegria, reconhece que a vida dos catadores é muito dura.

    Marcus Leite
   
    Éwerton cata laranjas ao lado do     amigo solidário Faísca

“Os lojistas discriminam muito a nossa classe”, protesta. Assim, a guerreira passa pela vida. Nunca deixando de sonhar, já estabeleceu uma meta: viajar no começo do ano à Minas Gerais para ver a sua mãezinha.

“Eu me sinto feliz”

Morador do interior de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Lindeberg do Nascimento Silva, de 44 anos, percorre 35 km para chegar até ao Ceasa. A semelhança com o prefeito da sua cidade limita-se apenas ao nome. A disposição do catador tem um fundamento. Casado há 20 anos e pai de cinco filhos, Lindeberg não consegue manter a sua família com o benefício do INSS que recebe por estar invalidado temporariamente devido a um acidente. Ele complementa a renda vendendo os papelões e economiza com os legumes recolhido nas lixeiras. “O dinheiro e a comida ajudam bastante. A minha renda é mensal e aqui todo dia ganho dez reais. Para quem tem cinco filhos é ótimo”, explica. O trabalhador considera bom o convívio com a administração, mas destaca dois grandes riscos para o catador: “Nos dias chuvosos, o chão fica escorregadio. Eu mesmo cai e bati com a testa numa pilastra”, destaca, ainda, “Nos latões existem bichos. Geralmente catamos os alimentos que aparentemente vai dar para consumir. Ninguém é louco de comer algo estragado”.

Lutando para vencer, Lindeberg esbanja dignidade ao descrever o seu estado de espírito: “Eu me sinto feliz, por que não roubo, não mato, não trafico e não uso drogas. Tenho minha família, tenho saúde e tenho liberdade. Isso me faz ser um homem feliz”.

Programas sociais da Ceasa

A única opção encontrada pelos dirigentes da casa para atenuar a fome das famílias das comunidades vizinhas foi a criação dos seguintes programas: Panela Cheia e Varejão Volante.

É consenso geral que diante da imensidão do problema são iniciativas como essas que acendem a esperança na redenção. Mas nem tudo são flores. Os gerentes dos programas Panela Cheia e Varejão Volante denunciam a falta de estrutura dos projetos, o que faz com que o número de famílias atendidas decresça num ritmo assustador. A prova da escassez de recursos está no cancelamento do programa Sopão da Cidadania extinto há cinco meses. Consistia na distribuição de sopas às famílias carentes feitas com frutas e legumes doados. O Varejão Volante atua fora dos limites da central e, por ser pago, é semelhante a um sacolão, atende uma classe mais privilegiada. Diferente do Programa Panela Cheia, que foi criado especificamente para eliminar os catadores do Ceasa.

A “Panela cheia” e os recursos, vazios

É um programa que visa o aproveitamento das sobras dos produtos sem padrão de comercialização. Uma equipe de funcionários recolhe, seleciona e acondicionam as frutas e legumes doados pelos lojistas. As sacolas são distribuídas para famílias previamente cadastradas. Na teoria, tudo é muito bom. Mas a realidade mostra o que muitos ignoram. O gerente do projeto, Pedro Cabral Castanheda, afirma que não possui nem mesmo funcionários para tocar a preparação. Segundo ele, sem a ajuda de voluntários teria de fechar as portas. “Tenho apenas cinco funcionários para acolher os 17.252 quilos de mercadoria arrecada (Outubro/2005). Atendemos hoje 12.770 pessoas de diversos pontos do Rio de Janeiro”, denuncia o funcionário. É interessante lembrar que o sucesso das entregas está condicionado a solidariedade dos comerciantes. “Temos alguns doadores fieis, mas muitos doam quando querem”, frisa. O Presidente da Associação Comercial dos Produtores e Usuários da Ceasa, Acegri, Waldir Lemos considera essencial o apoio dos associados ao Programa Panela Cheia. “O trabalho é importante, pois com a doação dos alimentos, diminuímos a cada dia aquela imagem que nos incomoda profundamente, de pessoas procurando alimentos nas caçambas de despejo”. Atualmente, Pedro não aceita inclusão de nomes nos cadastros, pois mal consegue contemplar os atuais beneficiados.

 


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