Diversidade
paralela dos camelódromos
Atividade informal fornece à população
um diferente padrão de vida
Por Renata Ladeira
Moda íntima, jogos, artigos de armarinho, material esportivo,
bolsas, brinquedos e serviços como cabeleireiro e consertos
em geral, podem ser encontrados nas centenas de camelôs
que compõem um dos principais centros comerciais do Rio
de Janeiro. Assim ficou conhecido o bairro de Madureira, Zona
Norte do Rio, que a partir dos anos 80 intensificou seu comércio
com a presença de camelôs e ambulantes que se posicionam
entre ruas e calçadas na briga pela conquista de fregueses.
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Renata Ladeira |
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Próximo
à estação de Cascadura, outro camelódromo
- preço baixo |
Esse comércio lida com produtos sem nota ou garantia,
mas oferecem ao consumidor preços baixos e, em muitos
casos, qualidade que se compare a produtos de shoppings e de
marcas renomadas. Mas ainda assim, camelódromos (como
são chamados a reunião de camelôs) já
é possível encontrarmos ambulantes que trabalhem
com a sua própria confecção. Com relação
á fazer sua própria linha de produtos, o ambulante
Jorge Prado afirma: “é mais fácil trabalhar
com aquilo que a gente conhece. É a garantia que nós
podemos dar aos nossos clientes” que há três
anos confecciona e vende sua própria marca de Moda Masculina,
a Sweet Sea. Além disso, garante: “essa por exemplo,
supera muita marca boa por aí.”, referindo-se a
uma de suas bermudas que fez questão de mostrar como
é resistente quando forçou sua costura.
Jorge já iniciou cinco faculdades dentre elas a de Veterinária
na UERJ, mas optou por trabalhar por conta própria. Ele
diz que sua vida é estar diretamente com o público
e sonha ter sua marca reconhecida. “Eu ainda vou ter uma
loja no shopping com esse nome”, sonha.
Diferentes opções
para comprar e também na hora de pagar
Diferentemente do que muita gente imagina a
moda das ruas tem alcançado o gosto de classes mais altas,
deixando de ser exclusividade popular. Não é difícil
encontrarmos pessoas com alto padrão aquisitivo, caminhando
entre as barraquinhas dos camelôs, ainda mais com estas
formas alternativas de pagamento. Muitas tendas já estão
aceitando cartões de crédito, débito ou
cheques o que torna o consumo mais facilitado. “Poder
pagar com cartões de crédito é uma grande
vantagem que eles oferecem” diz a artista plástica
Vânia Freitas, 46 anos. Falando de novidades no setor,
Vânia completa: “o que eu também acho interessante
nesse lugar é a grande variedade de modelos e cores de
todos os produtos que eles oferecem” que procura ver as
novidades dos camelódromos sempre que possível.
O Camelódromo Popular da Praça de Magno também
oferece serviços diversificados, como o salão
de beleza Estúdio Arte Beleza Mestiça que já
funciona há um ano e só vem crescendo e se popularizando,
Alexandre Di Black que o diga. O ex-dançarino e DJ trocou
suas tranqüilas aulas de dança para dedicar-se exclusivamente
ao estilo Afro e acredita que Madureira é um pólo
comercial que só tende a se valorizar. “Não
penso mais em sair daqui até porque esse negócio
superou minhas expectativas”, comemora Black. Já
Zilda Ferreira é outra que não se vê longe
do Camelódromo e da ASAMAG. Sempre disposta a ajudar,
ela também faz cobranças: “eu já
trabalhei como costureira, em bar, em ferro velho e aqui eu
tenho meu sossego e minha renda garantida”.
Hoje, já são cerca de 100 mil trabalhadores pelas
ruas de Madureira que pensam como a Senhora Zilda. Neste ritmo
o bairro tende a se transformar no maior centro comercial urbano,
priorizando o preço baixo, atendimento e marcas populares.
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Renata Ladeira |
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Em
frente ao mercadão, consumidores circulam pesquisando
preços |
O perigo mora
ao lado
Se por um lado tudo são flores, do outro
nem tanto. Com o crescimento dos ambulantes, os lojistas de
Madureira têm sentido na pele a queda nas vendas. A concorrência,
para esses estabelecimentos, não se limita mais a uma
outra loja ou marca, mas sim a um vizinho bem mais próximo:
são centenas de barracas que lotam as calçadas
para vender tudo que for possível, desde produtos alimentícios
até as modas mais inusitadas. Segundo o publicitário
Rogério Souza, todas as lojas deste bairro possuem pelo
menos um camelô como concorrente direto e não há
propaganda que ajude a reverter esse quadro. “O ambulante
ganha o cliente no grito e no preço baixo. Para o público
esse é o maior diferencial” lamenta Rogério.
Entretanto, mesmo com esta pedra no caminho o otimismo ainda
existe e os lojistas acreditam na melhoria das vendas, principalmente
com a proximidade do Natal. Falando de lucros, a gerente de
uma loja de moda íntima Valéria Almeida desabafa:
“A época das festas de fim de ano nos permite vender
além do normal, mas se não fosse pela constante
presença dos camelôs nosso lucro seria ainda maior”
alega Valéria.
A concorrência desleal fez a Associação
dos Lojistas tomar providências. Segundo a Gerente, foram
feitos pedidos diretos à Subprefeitura de Madureira para
que proibissem a permanência de ambulantes que não
tivessem uma autorização ou lugar próprio
para fixação de sua barraca. No entanto, enquanto
estas ações não se viabilizam outras medidas
estão sendo levadas a cabo, como um local próprio
para a manutenção deste comércio. “Os
camelódromos já existem, mas a fiscalização
deve ser constante” desabafa Valéria